martes, 30 de septiembre de 2008

Momentos da minha infância

A Estrada de Macadame

Combinámos encontrar-nos ali. Na beira da estrada. Era uma manhã de Primavera daquelas em que o Sol nasce brilhante, mas em que o frio da noite ainda se faz sentir até a meio da manhã. Tu tardavas. Eu esperei ansioso, sentado na berma sobre um monte de brita. Brita partida à mão por homens de tronco nu, que durante doze horas, sentados ao sol, martelavam sem descanso em pancadas ritmadas, as grandes pedras ali deixadas. Dois homens fardados e armados de espingardas montavam guarda àqueles outros, castigados a trabalho forçado, cerceando-lhes as liberdades.
Sentado ali sentia-me culpado. Suspenso sobre o vale como borboleta na brisa fresca da manhã, ouvindo o sussurro do ribeiro correndo o seu destino em direcção ao mar, sustendo a minha ansiedade pela tua demora, procurava ignorar o que me rodeava. O bater das picaretas marcava o ritmo do meu coração que acelerava com a tua demora.
Eu só pensava em ti e via em todas as imagens que se aproximavam a tua figura. Mas tu não vinhas. As horas passavam. Eu tentava matar o tempo, estendê-lo anulá-lo; como se tentasse parar o sol na sua caminhada, brincava atirando pedrinhas que planavam no ar, sobre o vale como aves de rapina.
Olhava o firmamento cristalino e procurava a lua que nos tinha acompanhado no nosso primeiro beijo. A lua não estava lá. A lua muda; muda de face e de posição. Uma constante mudança que me assustava. Serias tu como a lua?! Terias mudado?! Recordava as tuas palavras. Dentro dessas palavras procurava o sentido e a solidez dos teus pensamentos ditos à luz leitosa e calma do luar. Procurava o som das palavras e só encontrava o silêncio, o peso do silêncio, maior do que o peso das pedras da estrada de macadame que eu pisava. O silêncio doía. O tempo corria com a ausência do teu corpo, das tuas palavras, e eu já via o fim da tarde, o sol que desaparecia por detrás do outeiro, e de ti nem o cheiro que eu guardava nas minhas narinas. Eu a sentir-me magoado, amachucado, destruído com a ausência das tuas palavras. Eu que pensava que o amor não necessitava de palavras! Isso seria verdade se houvesse presença. Se o teu corpo estivesse ali. Se eu pudesse sentir-lhe o calor, cheirar o seu perfume, tocar-lhe, percorrê-lo com os meus dedos ou com os meus lábios, sentir o veludo da tua pele, as palavras seriam desnecessárias. Mas não havia nada. Esse nada tornou-se demasiado denso, demasiado presente, demasiado pesado, o meu corpo foi vergando. A dor da tua ausência foi-se instalando. A luz do sol fugiu, os homens que partiam as pedras foram embora, os pássaros calaram-se, a lua voltou sozinha.

4 comentarios:

  1. "A luz do sol fugiu, os homens que partiam as pedras foram embora, os pássaros calaram-se, a lua voltou sozinha". Um excelente texto sobre um amor ausente e um silêncio que magoa.
    Um abraço.

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  2. (...) e ela não apareceu...
    Ai João como sabe bem viajar no que tu escreves .....
    Excelente *****
    Beijos no coração

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  3. Vim agradecer a tua visita ao meu canto verde e deparei com uma imagem tão bela da natureza que muito aprecio e com um caminho que convida a continuar o passeio !
    Também agradou-me o teu texto sobre a dor da ausência de uma pessoa amada.
    Gostei de cá estar e voltarei de certeza !

    Se escreveres o nome do teu espaço no blog do Augusto , não te aceita ? Só não aceita os blogs anônimos...
    Não percebi ...
    Mas como podes ver, eu aceito todos os comentários e visitantes e nem tenho moderação de comentários e, à pedido de uma amiga que tinha dificuldade de visão, até retirei aqueles códigos de letras e nºs para controle e nunca tive que apagar nenhum comentários. Acho que sou uma sortuda !
    No meu blog, não há entrave, está aberto a todos mas não o deixo nas listas da WEB, Assim, só me visitam pessoas através de outras conhecidas se o nome e os meus comentários lhes agradaram. Não tenho centenas de comentários mas os que recebo são sinceros e é isto que acho essencial. Se decidires reíterar a tua visita, ficarei muito feliz !
    Abraços verdinhos

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  4. Olá meu caro e novo amigo
    Vim conhecer seu blog, e desejar uma sermana de muita luz e paz.
    Muitos carinhos e fontes de calor ao seu coração.
    Abraços da nova amiga.
    regina Coeli.
    Um texto muito lindo, mas umpouco melancólico, e ausente.
    fique na paz.

    Te aguardo em meu cantinho.

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