martes, 21 de octubre de 2008

O Vale do Moinho (trecho)

O Cabo abriu a porta e, para mostrar serviço e autoridade, atirou o Chico
com uma pancada de coronha nas costas.
Sentado a uma mesa reles a servir de secretária, outro Cabo. Um rosto de
balão avermelhado, onde o álcool tinha feito estragos; um pescoço grosso de
gorila sustentava um crânio demasiado pequeno para conter alguma inteligência; uns olhos salientes e raiados de sangue inspeccionaram,
obliquamente, o Chico. Os lábios carnudos esgarearam um sorriso, pondo
a descoberto dentes manchados de tabaco e de vinho, como teclas amarelas
de um piano velho e apodrecido.
- É você, o Francisco Rebelo?
- Sou.
- Tem documentos?
Os guardas não deram tempo ao Chico de apresentar os seus documentos.
Antes dele, meteram-lhe as mãos às algibeiras e despejaram tudo quanto
encontraram, sobre a mesa.
Mas o Cabo não se preocupou em ler os documentos.
- Porque me prenderam?! perguntou o Chico.
- Isso vais tu dizer-nos!...retorquiu o Cabo com ar de troça, enquanto abria
um canivete e limpava com ele as unhas.
- O que fazias na Marinha Grande no dia da greve?
- Fui visitar o meu pai. Sou filho do chefe da estação ferroviária.
- Isso sabemos nós!...menino!...Mas foste visto noutros sítios, fora da estação!
- Andei a passear enquanto esperava. Porquê?! É proibido?!
- Veremos!...menino!...veremos!
E dizendo esta irritante frase, aplicou uma forte bofetada na cara do Chico.
O Chico não vacilou. Levantou a cabeça e olhou de frente aquele
"pau mandado" (...)
Mais uma bofetada na cara do Chico.
Durante vinte e quatro horas interrogaram o Chico sem descanso.
(...) O Chico susteve todas as suas necessidades.(...) Sentou-se no chão de
cimento frio, encostado à parede. Pensou nos filhos (...) procurou afastar os
pensamentos. Vegetar, hibernar, para o esforço não ser tão grande.
(...) Não sabia o que lhe fazia mais raiva, o tratamento a que o sugeitavam, se
aqueles imbecis, ignorantes soldados da Guarda Republicana, que se prestavam
àquele nojento servilismo à ditadura.
(...)Ao terceiro dia libertaram o Francisco.
(...) Até à próxima!...menino!

O Vale do Moinho é o meu segundo romance editado em outubro de 2007.

6 comentarios:

  1. ...parabéns pela força das palavras...deve ser um belo romance
    beijos

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  2. Vim cá retribuir a visita.
    Gostei, irei voltar.
    Devia ter deixado este comentário no livro de visitas, que tem boa musica, mas apeteceu-me deixar aqui.
    Escritor, muito interessante, eu papo livros.

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  3. Um obrigado a todas pelas visitas e pelos comentários. Um à parte para a Ana: somos todos "papa livros" por isso aqui andamos.

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  4. Somos todos um, não é?
    Um abraço.

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  5. Pelo texto dá para perceber a força do romance. Muito bom mesmo! Um raio de sol no teu dia.

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