miércoles, 25 de noviembre de 2009

O meu 25 de Novembro

Parece ser uma data que muitos quer esquecer ou ignorar. Entre o 25 de Abril de 74 e 25 de Novembro de 75, muitos foram os que não sabiam para que lado cair, se para a democracia se para a revolução. Depois, muitos dos revolucionários mais fervorosos passaram a democratas apanhando os lugares e as oportunidades que se lhe abriram, no mais descarado desaforo.
Em 25 de Novembro vivi a maior responsabilidade de toda a minha carreira, muitos a ignoram, os que estavam próximo esqueceram.
Após o 25 de Abril a sociedade entrou em ebulição e, nas escolas, instalou-se quase o caos. Eu estava a leccionar na então Escola preparatória. Era, aliás, o meu primeiro ano naquela escola. Com a revolução em marcha ninguém se entendia. O anterior director fora demitido mas ninguém o substituíra. As reuniões duravam o dia inteiro, não havia ninguém que assumisse o comando da Escola. Os professores gladiavam-se. Eu tive a ousadia de perguntar se sairíamos daquela situação ou encerraríamos a Escola. Como não estava conotado nem com direita nem com esquerda, numa espécie de votação apressada encarregaram-me de dirigir a Escola. Escolheram também dois colegas para trabalharem comigo. Claro que em poucos dias fiquei sozinho porque cada colega entendia as coisa à sua maneira, ou revolucionariamente ou pacificamente. Tomei portanto a direcção da escola sozinho, mantinha o meu horário completo, havia falta de funcionários e os que havia recusavam trabalhar porque eram mal pagos e “agora” queriam ser equiparados aos professores, também havia falta de alguns professores. Eu tinha ainda a minha licenciatura para acabar. Fazer horários era uma tarefa quase impossível porque toda a gente queria coisas a seu jeito, o Ministério da Educação como todos desapareceu, quase todos os dias eu tinha que me deslocar a Lisboa, no meu carro e sem qualquer ajuda financeira, onde uma espécie de comissão ia resolvendo, atabalhoadamente, alguns problemas. O antigo director, colega competentíssimo manteve-se a leccionar mas silencioso e estava fora de questão pedir-lhe ajuda o que equivaleria a ser eu o saneado. Na sala a que chamavam o meu “gabinete” entravam todos os dias colegas dos mais “ revolucionários” exigir que “ saneasse” o antigo director. Alguns “professores” de trabalhos manuais fabricavam com os alunos matracas e armas para a “defesa” da revolução. O chefe da Secretaria, saneado de outra escola encolhia-se com medo de qualquer decisão. Por tudo e por nada havia uma reunião onde os professores, cerca de 80, nunca se entendiam.
Foi neste “ pacifico” clima de trabalho que cheguei ao dia 25 de Novembro. Cerca das 10 horas telefonaram para ir com urgência, tinha dois oficiais do exército em minha casa. Por esses oficiais foi me dito o que se estava a passar, o Presidente da República tinha declarado o estado de sítio, e o exército queria cercar a Escola e prender os professores a não ser que eu garantisse que a escola continuaria a trabalhar sem problemas.
Dei a minha palavra de honra que na Escola se manteria tudo normal. Quando cheguei à Escola apenas acompanhado de um cabo e um praça, uma auto-proclamada delegada sindical ligada ao PCP tinha chamado os professores para uma reunião. Muito ingénuos estavam todos reunidos. Tinha apenas uma hipótese: mandar os colegas todos para as aulas antes que os alunos fossem embora ou ser o primeiro a ir para a cadeia militar. Não foi fácil obrigar a “sindicalista” a recolher as garras e convencer os colegas a regressarem às salas.
Logo que, em 76 houve eleições para os Conselhos Directivos entreguei a direcção. Nunca tive apetite pelo poder. Não tive qualquer compensação, no entanto, sozinho, dirigi uma escola durante dois anos. Não consto sequer como se alguma vez tivesse dirigido aquela Escola. Hoje é fácil. Os democratas de hoje uns não sabem disto, outros fizeram por esquecer.

2 comentarios:

  1. Quase não me apercebia do 25 de Novembro. A independência de Angola foi no dia 11 de Novembro. Meu marido era militar e foi dos últimos a sair de Angola. Eu estava empregada no Colégio Marista, e pertencia à Cáritas. Estive até ao fim com meu marido. Quando viemos, foi a adaptação a uma realidade que desconhecíamos, e dias depois era o 25 de Novembro.
    Um abraço

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  2. O apetite pelo poder, quando não doseado ou combatido, leva ao caos e desestruturação que temos hoje, sobretudo no ensino e a saúde. Pudesse haver mais gente de tecido humano com capacidades de alcançar essa homeostase e recusar algo pra que não se tem competencia. Já outros, por escolha, sairam de fininho, pois adivinhavam cargas pesadas no meio desse poder que torna ineficientes tantos...
    Hoje 29 de Novembro, a história feita ontem já está esquecida. Hoje repetem-se erros e inventam-se novos, graças á péssima memória que se tem das coisas boas e más.

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